Maya Gabeira
Maya Gabeira

Maya Gabeira, 31, esteve perto da morte em 2013, quando desafiou a onda gigante da Praia do Norte, em Nazaré, Portugal.

A surfista brasileira tentava bater o recorde de maior onda surfada, que à época pertencia ao norte-americano Garrett McNamara -78 pés ou 23,8 m.

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Naquele dia, não houve diálogo entre Maya e o mar. Assim que caiu da prancha, ela foi engolida pela água, que a envolveu em um turbilhão.
A sequência de ondas pesadas sobre seu corpo deixou-a inconsciente, além de um tornozelo (o direito) quebrado. Graças a Carlos Burle, seu técnico e grande amigo, foi resgatada e levada para a areia, onde precisou ser reanimada.


Para muitas pessoas que enfrentam situações extremas, é natural que se evite reviver o ambiente que lhe causou tamanho trauma. Para o atleta de alto nível, porém, retornar a essa lembrança pode ser um combustível para superá-la. Foi o que fez Maya Gabeira.


A carioca se mudou de Los Angeles, nos Estados Unidos, para Nazaré em 2015. Foi viver ao lado da onda que quase lhe tirou a vida.
Nesse período pós-acidente, passou por duas cirurgias na coluna, inúmeras sessões de fisioterapia, treinos na água e acompanhamento psicológico. Maya aprendeu a conviver com uma série de sensações novas.


O baque foi tão forte que ela procurava evitar supermercados ou lugares lotados de gente. Diminuiu também o número de viagens que fazia, seja para competir, atender a eventos de patrocinadores ou visitar a família.


Apesar de tudo isso, seu foco nunca deixou de ser um só: bater o recorde de Nazaré.


Em 18 de janeiro deste ano, a brasileira completou uma onda de 20,7 m (ou 68 pés), a maior de sua carreira. E a maior já surfada por uma mulher na história do esporte, feito que a colocou no Guiness Book.


“Foram dias muito difíceis, era uma onda que a gente estava explorando há algum tempo, tinha muita expectativa em cima daquele dia, daquele surfe. E poder sair com uma onda bem surfada foi extremamente gratificante”, diz Maya à Folha, por telefone, de sua casa em Portugal.


A caminhada até o reconhecimento pelo livro dos recordes, porém, foi quase tão árdua quanto o processo de atingir a marca. Dessa vez, sua batalha aconteceu fora da água, nos bastidores.


A marca de Garrett McNamara era a única reconhecida para a modalidade de ondas gigantes. Não havia distinção entre a maior onda surfada por um homem e a maior surfada por uma mulher.


Maya batalhou por isso e pressionou a WSL (siga em inglês da Liga Mundial de Surfe) para que a entidade convencesse o Guiness a abrir uma categoria feminina.


Na liga, encontrou na australiana Jessi Miley-Dier, diretora de desenvolvimento dos atletas, uma grande aliada para legitimar seu recorde, que foi anunciado pela WSL em conjunto com o Guiness Book no último dia 1º de outubro.


“Tive que correr atrás, porque já estava ficando muito demorado, eu estava um pouco sem paciência. Existiu um trabalho, um esforço meu de mostrar que era necessário, de que tinha uma urgência, de que tinha que acontecer. Batalhar por aquilo. Natural que eu fosse a primeira pessoa a conquistar esse recorde. Isso abriu as portas, porque uma atleta agora não vai precisar ter esse trabalho de criação de uma categoria”, diz.


O sucesso da brasileira na empreitada burocrática se soma a outra decisão importante para o fortalecimento do surfe feminino. Em setembro, a WSL anunciou que a partir de 2019 todos os eventos controlados pela entidade terão prêmios iguais para homens e mulheres. Decisão comemorada por Maya.


“Achei maravilhoso. [O surfe] Sempre foi um esporte visto como masculino. A Liga tomar essa atitude de igualar a premiação é um grande passo não só para fazer crescer o esporte feminino profissional, mas também igualar as oportunidades no âmbito financeiro”.


Desbravar o novo e ser pioneira em um cenário tão masculino como ainda é o surfe profissional não representa propriamente uma novidade na carreira de Maya Gabeira.


Em 2009, a brasileira se tornou a primeira mulher a surfar ondas gigantes nas águas geladas do Alasca.


Em 2011, foi ao Taiti enfrentar Teahupoo (que significa “praia dos crânios quebrados”, em taitiano), uma das ondas mais temidas e perigosas do mundo em razão da bancada rasa de corais que reside no fundo da praia. Foi derrubada e, assim como em Nazaré, deixou a água inconsciente.


Dois anos depois, após treinar a apneia (suspensão voluntária da respiração) e pegar mais experiência nos tubos de Puerto Escondido, no México, ela retornou ao Taiti para encarar novamente Teahupoo, e teve sucesso.


“Eu sempre fui assim, de me dedicar muito a uma onda, um lugar que eu achava que era importante para o esporte e para minha evolução”, afirma a surfista.


O que mais a move? “Coisas ainda não feitas, explorar, descobrir os lugares, as ondas, o meu limite. Ser a primeira. Muitas das coisas que eu fiz fui a primeira mulher a fazer. Gosto de dar esse passo inicial, abrir a porteira para as próximas.”


Com o recorde e o reconhecimento alcançados, Maya Gabeira ainda desfruta as glórias recentes da carreira e não sabe quais serão seus próximos desafios no esporte.


O que ela não consegue é dissociar-se do mar. Como no acidente de 2013, em que seu processo de recuperação envolveu a mudança para Nazaré para ficar colada na praia onde viveu seu maior trauma. A proximidade com a água permeia sua vida até mesmo nos sonhos sem a prancha de surfe.


“Adoraria dar a volta ao mundo em um veleiro. É meu próximo sonho”.

PERFIL – Maya Gabeira, 31
Nascida em 10.abr.1987 no Rio, é pentacampeã mundial do Big Wave Awards, o principal prêmio das ondas gigantes