Foto: Divulgação
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Participar de uma novela, fazer a turnê patrocinada de um espetáculo de sucesso ou dedicar-se a um sonhado monólogo. A crise de um artista em conflito com suas escolhas profissionais é o ponto de partida de “O Eterno Retorno”, com dramaturgia de Samir Yazbek e direção de Sérgio Ferrara.

Para além da concretude das decisões a serem tomadas, o espetáculo abre-se para a reflexão sobre o papel da arte na sociedade contemporânea. As personagens parecem buscar uma construção arquetípica –ainda que, por vezes, resvalem em estereótipos– sendo representações de pensamentos sobre o teatro.

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Neste sentido, cabe pensar sobre o modelo de artista em crise representado pelo protagonista. Em uma possível tentativa de universalização a fim de localizar os questionamentos como quase exclusivamente subjetivos, o que se estabelece é um recorte de certo modo burguês e inevitavelmente elitista.

O espetáculo movimenta-se a partir do choque de visões de mundo daqueles que orbitam este ator. Sua mãe representa, à luz da atual sociedade brasileira, um rasteiro senso comum cujo imaginário considera a arte um mero hobby. Seu diretor, um saudosista dos tempos do Teatro Brasileiro de Comédia com uma visão eurocêntrica sobre o teatro. A figura do produtor –que irrita profundamente o protagonista– é um profissional com pé no chão; que compreende o fazer artístico como labuta diária.

No confronto com sua namorada evidencia-se o caráter existencial da crise do ator. Enquanto ela crê no teatro como ferramenta de transformação, ele afirma estar na inutilidade dessa arte sua grande potência.

Ainda que falte certa autocrítica na construção do protagonista, o que se desenha é, então, a angústia do indivíduo enquanto artista no mundo. As alusões e referências presentes na encenação caminham nesse sentido.

O monólogo que seria a grande realização da carreira desse ator versa sobre a vida e a obra de Charles Baudelaire, precursor do simbolismo –movimento artístico com o qual o imaginário do espetáculo parece dialogar.

Os três planos da encenação são clara referência a “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues. Ainda que por vezes sobrepostos, realidade, imaginação e memória estão na dramaturgia de Yazbek –e são sutilmente indicados na cenografia de Telumi Hellen.

A encenação do texto rodriguiano é um marco da modernização do teatro brasileiro. Dessa maneira, mesmo não fazendo uso de grandes inovações estéticas, “O Eterno Retorno” parece, de algum modo, fazer menção à agonia do artista frente ao novo.

A iluminação de Aline Santini se aproveita bem do caráter metateatral da encenação para construir recortes de grande beleza. A interpretação de Luciano Gatti, compreendendo o contraditório do protagonista, merece destaque. O elenco é consistente, ainda que o registro de Gustavo Haddad destoe um pouco dos demais. A direção de Ferrara resulta em uma obra bem acabada, mas aberta para a reflexão do espectador.

O ETERNO RETORNO
Avaliação: bom
Quando Sex., às 18h e às 21h, sáb., às 21h, dom., às 18h. Até 2/12
Onde Sesc 24 de Maio, r. 24 de Maio, 109
Preço R$ 12 a R$ 40
Classificação 14 anos