Foto: Reproução

A Fórmula 1 pode ser considerado o mais britânico dos campeonatos mundiais, e não é por acaso que a categoria está monitorando de perto o andamento das negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit. Afinal, com 7 das 10 equipes baseadas na Inglaterra e contando com muitos profissionais da Europa continental, além de oito etapas realizadas na UE, as ameaças ao livre trânsito de pessoas e as facilidades de transporte de equipamentos de hoje poderiam trazer consequências sérias para a categoria.

Nesse cenário, a equipe que tem todos os motivos para estar satisfeita com os caminhos do Brexit é a Ferrari. Por anos, o time baseado na Itália tem tido dificuldades para contratar profissionais gabaritados vindos de equipes inglesas, uma vez que eles teriam de mudar de país e se adaptar a uma nova cultura.

- Publicidade -

Como muito desses profissionais não são ingleses e o cerco à chegada de europeus à Inglaterra se acirraria, ir para a Ferrari se tornaria uma solução para muitos. “Se tudo caminhar na direção que está anunciada no momento, suspeito que, em um futuro próximo, vamos ver muitas pessoas batendo na porta em Maranello”, disse o chefe da Ferrari, Maurizio Arrivabene.

São três os pontos de preocupação: primeiro, a atratividade do Reino Unido para cidadãos não apenas da UE, como também de todo o mundo, uma vez que até mesmo as equipes menores têm engenheiros de diversas nacionalidades.

Segundo, a maior dificuldade na importação de peças, uma vez que há várias partes do carro que são terceirizadas. Muitas equipes inglesas, por exemplo, usam os freios italianos da marca Brembo. A importação ficará mais cara e será mais difícil?

E a terceira questão é de logística, tanto no deslocamento de funcionários para as oito etapas realizadas na UE, quanto na velocidade na liberação dos equipamentos nas fronteiras.

PEÇAS E FUNCIONÁRIOS

A maior preocupação é entre Mercedes e Renault, por motivos diferentes, mas que vêm da maneira como estes times estão organizados. A Mercedes, apesar de ser alemã, tem tanto a fábrica do time em si, quanto a divisão de motores baseadas na Inglaterra. Segundo o chefe Toto Wolff, são 1800 pessoas no total, sendo cidadãos europeus em grande parte.
“Pessoalmente, tento ficar longe de política porque o assunto é muito próximo a meu coração, já que o motivo de termos começado a União Europeia foi uma guerra e é isso que queremos prevenir”, disse o austríaco. “Temos muitos cidadãos europeus trabalhando para nós e importamos muitos produtos da União Europeia então, no geral, não é algo agradável.”

Já no caso da Renault, a fábrica da equipe é baseada na Inglaterra, e a fábrica de motores está na França. “Além disso, sob a perspectiva industrial, a Renault e a Nissan têm fábricas importantes no Reino Unido”, lembrou o chefe dos franceses, Cyril Abiteboul.

“Precisamos sentar com o governo britânico para entender como ficarão o trânsito de pessoas e produtos. Obviamente, não queremos que nossa logística seja atrasada de maneira nenhuma. A maneira como ela tem sido até agora aconteceu graças às possibilidades oferecidas pelo Reino Unido.”

CALENDÁRIO

O calendário da Fórmula 1 leva em consideração, é claro, questões logísticas. Parte dos equipamentos é mandada ao redor do mundo por navio, e parte por via aérea. Já durante a porção europeia do campeonato, o transporte é feito por caminhões, o que diminui bastante o custo.

As facilidades das equipes baseadas na Inglaterra -além de Mercedes e Renault, são elas Williams, McLaren, Force India, Red Bull e Haas (que tem parte da operação na Inglaterra, e parte nos EUA)- deslocarem seu equipamento para as oito etapas europeia do calendário dependem de questões alfandegárias e a rapidez do processo atual torna possível fazer, como em 2018, três corridas em finais de semanas seguidos. Neste caso, os caminhões saíram da Inglaterra, passaram por França e Áustria e voltaram ao Reino Unido (um percurso de mais de 4.000km) em um espaço de pouco mais de 20 dias.

O Reino Unido e a União Europeia estão finalizando o acordo para a saída do país do bloco. O prazo final para que o Reino Unido saia definitivamente da UE é 29 de março, entrando em um período de transição que durará até 2020.