Presidente eleito Jair Bolsonaro no Congresso Nacional 06/11/2018 REUTERS/Adriano Machado
Presidente eleito Jair Bolsonaro no Congresso Nacional 06/11/2018 REUTERS/Adriano Machado

O presidente eleito Jair Bolsonaro mostrou irritação e se recusou a responder ao ser questionado nesta terça-feira sobre a decisão do governo do Egito de suspender uma visita do ministro das Relações Exteriores brasileiro, Aloysio Nunes Ferreira, depois que o futuro chefe do Executivo reafirmou a intenção de mudar a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém.

“Não, outra pergunta”, disse Bolsonaro a repórteres ao ser perguntando duas vezes sobre a crise aberta com o Egito ao sair de uma reunião no Ministério da Defesa, onde ficou por cerca de duas horas.

- Publicidade -

Bolsonaro afirmou que fez uma visita de cortesia ao ministro da Defesa, general Joaquim Silva e Luna, e foi evasivo ao responder sobre o pleito dos militares de ficarem de fora do contingenciamento do orçamento de 2019.

Diante da insistência dos jornalistas sobre a questão do Egito, mostrou irritação e encerrou a entrevista.

O governo egípcio informou na segunda-feira ao Itamaraty que a visita de Aloysio, marcada para a próxima quinta-feira, teria que ser cancelada por “problemas de agenda” das altas autoridades do país. O chanceler brasileiro se encontraria com o ministro das Relações Exteriores egípcio, Sameh Shoukry, e com o presidente do país, Abdel Fattah el-Sisi.

Fontes do Itamaraty confirmaram à Reuters, no entanto, que o cancelamento teria sido causado pela reafirmação de Bolsonaro de que faria a transferência da embaixada para Jerusalém, copiando a decisão do presidente norte-americano, Donald Trump.

Bolsonaro já havia falado sobre o tema na campanha e, na semana passada, reafirmou a decisão em uma entrevista a um jornal israelense e depois em sua conta no Twitter.

Nos meios diplomáticos, um cancelamento de visita em cima da hora e sem a proposta de uma nova data é considerado um gesto de desagrado, mesmo que o Egito não tenha dado outros sinais nesse sentindo ao governo brasileiro.

A cidade de Jerusalém é considerada território em disputa entre Israel e a Autoridade Palestina. De acordo com o plano da Organização das Nações Unidas (ONU) para a região, com a criação de dois Estados, a cidade seria a capital de ambos, já que os dois povos a reivindicam como território ancestral. No entanto, enquanto a solução não é implantada, Jerusalém não é reconhecida pela ONU como capital de nenhum dos dois países.

A decisão de Bolsonaro, que diz não reconhecer a Palestina como nação, força uma posição brasileira de alinhamento com Israel, contrária à seguida pela diplomacia brasileira até hoje, que sempre foi de apoio à solução de dois Estados e o reconhecimento da Palestina, e desagrada os países árabes, que hoje são o quinto destino de exportações brasileiras, especialmente de carne, frango e açúcar.

Aloysio viajaria com uma comissão de empresários, já que a intenção da visita era fortalecer as relações comerciais entre Brasil e Egito depois da assinatura de um acordo de livre comércio entre o país árabe e o Mercosul.

(Reportagem de Lisandra Paraguassu; Edição de Pedro Fonseca)

Deixe seu comentário