Rio de Janeiro - O candidato ao governo do estado do Rio, Wilson Witzel ( (PSC/PROS), participa de caminhada no bairro de Campo Grande, zona oeste da cidade.

A vitória do Partido Social Cristão na disputa pelo governo fluminense fez com que o Rio de Janeiro passasse a ter o estado e a capital comandados por partidos vinculados aos valores cristãos. É um cenário inédito no país.

O governador eleito Wilson Witzel (PSC), um ex-juiz católico, se soma ao prefeito Marcelo Crivella (PRB), bispo licenciado da Igreja Universal, eleito há dois anos.

- Publicidade -

Embora ambos os partidos tenham vínculos com valores religiosos, as siglas sofrem influências distintas dos comandos eclesiásticos das denominações a que estão ligadas.

O PRB tem um comando concentrado na Universal, embora tenha quadros de fora da denominação. O PSC tem como presidente nacional pastor Everaldo, da Assembleia de Deus. Contudo, a sigla também tem forte presença de políticos ligados à renovação carismática da Igreja Católica, caso do vice-governador eleito, o cantor Cláudio Castro.

“O PSC não é religioso nem evangélico. É um partido político que se norteia por princípios cristãos. Princípio não é fé cristã. Até 2015, o presidente era católico”, disse pastor Everaldo.
O Rio de Janeiro tem 29,4% de sua população evangélica, segundo o Censo de 2010. É o 7º estado com a maior proporção no país e o líder em número absoluto. Para Ricardo Mariano, sociólogo da USP estuda a ascensão evangélica, é também “a ponta de lança da transformação no campo religioso no Brasil”.

“É o estado que lidera o declínio católico e o avanço evangélico e dos sem religião nas últimas décadas. É natural que, com a mobilização política de algumas igrejas evangélicas, eles ampliem sua representação”, afirmou.

O Rio de Janeiro já teve como governador o presbiteriano Anthony Garotinho, cuja administração sofreu críticas por beneficiar igrejas evangélicas na execução de programas sociais. Pastor Everaldo, por exemplo, era o coordenador do Cheque Cidadão, uma espécie de Bolsa Família cuja distribuição era feita por instituições religiosas -em sua maioria evangélicas, mas também católicas e espíritas.

Há quase dois anos no governo municipal, Crivella responde a ação de improbidade administrativa sob acusação de beneficiar grupos evangélicos no encaminhamento de serviços públicos. Ele nega ter privilegiado fiéis desses grupos.

Para Mariano, “é difícil prever o que pode acontecer” na ponta do serviço público com o alinhamento cristão no Rio de Janeiro. Na educação, em que a principal bandeira deste grupo é o “Escola sem Partido” e o ensino do criacionismo nas escolas, o sociólogo diz que mesmo a aprovação de projetos no Congresso com esse teor podem sofrer resistências na máquina pública e questionamentos judiciais.

“Se tanto a prefeitura como o governo do estado compartilharem dos mesmos ideais, se tiverem secretários que concordem com essas mudanças, isso provavelmente terá um impacto maior. O que não quer dizer que não haverá resistência”, disse o professor da USP.

Mariano aponta ainda que não foram apenas os eleitores evangélicos que levaram os partidos de valores cristãos ao poder. O contexto eleitoral do Rio de Janeiro, com o ex-governador Sérgio Cabral preso por corrupção, foi um dos principais fatores que viabilizaram as candidaturas do PSC e PRB.

As duas siglas fizeram parte dos governos do MDB no estado e na capital, mas conseguiram ocupar o espaço de oposição que até então se resumia principalmente ao grupo de Garotinho -que sofria forte rejeição- e o PSOL, cuja sigla nunca teve forte capilaridade.

Em 2016, Crivella enfrentou o deputado Marcelo Freixo (PSOL) no segundo turno. Para o sociólogo, o bispo licenciado da Universal só venceu em razão da rejeição à esquerda que já crescia à reboque do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

“Talvez se fosse outro adversário, Crivella teria perdido mais uma vez”, disse o sociólogo. O prefeito já havia disputado outras quatro eleições majoritárias, sem sucesso em razão de sua alta rejeição.

Witzel, por sua vez, cresceu embalado pela ascensão do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), que também foi um veemente defensor dos valores cristãos. O governador eleito sempre repetiu seu “respeito à família tradicional” e outros dogmas religiosos. Mas o debate eleitoral não girou em torno desta temática.

Até mesmo a Assembleia de Deus se dividiu na eleição fluminense. Enquanto pastor Everaldo apoiava Witzel, Silas Malafaia e Abner Ferreira defenderam o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM).

Deixe seu comentário