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terça-feira, 21 de maio de 2019 4:0529
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Vittorio Storaro conversa sobre megaexposição na Oca

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Filho de um projecionista, Vittorio Storaro, desde criança, acompanhava o pai na cabine. Sempre foi seduzido pelas imagens em movimento. O pai, explicando-lhe o mistério, somente aguçou sua curiosidade – como imagens fixas, projetadas a uma determinada velocidade, adquirem movimento? Disposto a decifrar o enigma, o jovem Vittorio foi estudar cinema, mas nunca quis dirigir. Interessava-lhe, muito mais, a imagem. Em 1968, assinou sua primeira direção de fotografia. “Não, não me identifique como diretor de fotografia, por favor. Na Itália, há muito abolimos essa definição. Somos autores de cinematografia.”

Nesses quase 50 anos, Storaro tornou-se um dos mais respeitados – e premiados – autores de cinematografia do mundo. “Realizei o sonho de meu pai”, diz. Mas nunca foi só um prático. Desde cedo, sentiu necessidade de refletir sobre sua atividade. Nos anos 1990, associado à Editora Mondadori, iniciou uma série – Escrever com a Luz, Scrivere con la Luce. Os livros viraram uma megaexposição que se inaugura nesta sexta, 22, na Oca. Storaro revela seus segredos. No limite, produzir imagens em movimento é transformar matéria em energia. Parece simples, mas, para chegar a essa depuração, foi preciso muito estudo. Química, física, astronomia, o prisma de Isaac Newton. Os filósofos gregos. A exposição, que não deixa de ser uma jornada de Storaro através de sua vida e carreira, é como uma aula. “É a minha master class ”

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Storaro conversa com o repórter de sua suíte no Trump International Hotel, de Nova York, enquanto aguarda o carro da produção que virá buscá-lo. A assessoria da exposição, no Brasil, já advertira – “Serão 15 minutos, apenas, porque ele está muito ocupado.” Mas o maestro desembesta a falar. Durante quase uma hora, honra seu pai, decifra a luz, detalha como será a exposição – que o repórter visitou somente nesta quinta-feira, 21, na Oca. Por que Nova York? “Estou iniciando a rodagem de meu terceiro filme com Woody Allen, depois de Café Society e Roda Gigante, com Kate Winslet, que será lançado no festival daqui, em outubro.” Elogia o grande Woody – “Ele é um doce de pessoa. Nesse tempo todo, nunca o vi levantar a voz no set, aliás, nunca trabalhei com diretores autoritários. Quem precisa gritar para impor sua autoridade é porque não (a) tem.”

Explica que Woody tem sempre um conceito muito claro do filme. Trabalha conjuntamente com o diretor de fotografia, perdão, com o autor de cinematografia, o diretor de arte, o/a figurinista. “E ele ouve o que cada um tem a dizer, embora sutilmente coopte todo mundo a fazer as coisas à sua maneira.” Toda essa conversa com a equipe é feita a partir do roteiro. “E ele escreve divinamente. Embora tenha escrito meus livros, envergonho-me, se for comparado a ele.” Storaro, naturalmente, subestima-se. É ótimo com as palavras, oralmente. Encantatório como deve ter sido a própria Xerazade, seduzindo o sultão. E quanto a escrever com a luz… Seus três Oscars – por Apocalypse Now (1979), Reds (1981) e O Último Imperador (1987) – e a parceria com grandes diretores o colocam no panteão. Ele admite que, mesmo formado, começou cru. “Minha sorte foi ter começado com uma figura paternal como Franco Rossi, que, além de tudo, era sábio, um homem de cultura. Franco percebeu minha insegurança em Giovinezza, Giovinezza. Poderia ter-me despedido. Preferiu me dar apoio.”

Giovinezza permanece uma raridade – seu único filme em preto e branco. Consciente de suas limitações, o jovem Vittorio recusou as ofertas e tirou um tempo sabático, de preparação. Estava em Roma, entrou numa ‘piccola chiesa’. Foi como um milagre.

Descobriu um quadro de Caravaggio, A Tentação de São Mateus. E fez-se a luz – Storaro descobriu a cor. Fortalecido, iniciou com O Conformista a parceria de 25 anos com Bernardo Bertolucci. Apaixonado pelas imagens do Conformista, Francis Ford Coppola chamou-o para Apocalypse Now. Tentou declinar – “Mas, Francis, não entendo nada da guerra e sinto que um norte-americano deveria ocupar essa função.” Coppola levou-o numa viagem de avião às Filipinas. Durante o voo, o cineasta visionário explicou-lhe que Apocalypse Now não seria um filme sobre a guerra, mas sobre o imperialismo em ação. “Deu-me um pequeno livro para ler, O Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Tive imediata clareza do que ele queria fazer. Uma trajetória da luz para a sombra.”

O repórter lembra Joseph Losey, que dizia que toda grande dramaturgia, todo grande cinema, narra o percurso de um personagem da sombra para a luz. “E Francis sabe disso. Acontece que o imperialismo viaja nas sombras da canibalização e da destruição. Tem de destruir o que se opõe a ele. O percurso é inverso, porque é crítico, mas na essência é o mesmo embate entre luz e sombra.” Assim como Bertolucci o levou a Coppola, Coppola levou-o a Warren Beatty (Reds) e a Woody Allen. Uma história de amizades, parcerias. Uma curiosidade insaciável. “Ser um ‘maestro’ (mestre) não me coloca acima da necessidade de aprender. E só aprendemos com troca de informação, com reflexão “

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