O primeiro disco em carreira solo do músico Marcelo Yuka, “Canções Para Depois do Ódio”, chega às plataformas digitais nesta sexta-feira, 6 de janeiro, e ganhará formato físico ainda neste mês. O fundador e ex-baterista do grupo O Rappa já havia antecipado ao público o primeiro single do disco, “Movimento da Massa”, em 2 de dezembro último, com vocais do cantor Bukassa Kabengele.

Com participação de nomes como Seu Jorge e Céu, “Canções Para Depois do Ódio” traz 16 composições de Yuka. O músico, que prevê para fevereiro um show de lançamento no Rio de Janeiro, está satisfeito com o que mostrará ao público.

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“Estou contente com o resultado melódico do disco, são canções que você pode cantar junto. Eu quis fazer um disco com base na minha essência. Quando eu era pequeno, em Campo Grande, tinha muito som de terreiro, depois, quando cresci, por volta dos 30 anos, tinha o barulho do funk no ar”, explica Marcelo Yuka, que vem trabalhando na produção do álbum há dois anos.

O material gráfico do encarte e a capa do álbum mostram pinturas produzidas pelo próprio Yuka, que em dezembro passado exibiu algumas de suas obras numa exposição no Rio de Janeiro. “Canções Para Depois do Ódio” é o primeiro trabalho de Yuka em carreira solo. Antes, o músico havia lançado três discos com a banda O Rappa (“O Rappa”, “Rappa Mundi” e “Lado B Lado A”) e um com o grupo F.UR.T.O (“Sangueaudiência”).

 

“Canções para Depois do Ódio”, por Arthur Dapieve:

Passaram-se onze longos anos desde que Marcelo Yuka pôs na rua seu último trabalho musical, “Sangueaudiência”, primeiro e único CD do projeto F.UR.T.O. Ou, para quem examinasse a sobrecapa com atenção, Frente Urbana de Trabalhos Organizados. Desde 2005, poderiam ter existido outros discos, incluindo um eletrônico e um de samba. Nenhum viu a luz do dia. Agora, porém, chega “Canções Para Depois do Ódio”.

Outro título chegou a ser cogitado: “O íntimo versus o que intimida”, verso da faixa “Até você”, uma paisagem sonora enfumaçada que lembra as vibrações mais assustadoras de Tricky. Venceu o título que se posiciona, já de cara, como declaração de princípios e de fins, o título que convocava para um crowdfunding, dois anos atrás. O bom “Sangueaudiência” era crispado, discursivo, excessivo. “Canções Para Depois do Ódio” não é um álbum de canções bobo-alegres – e nunca poderia ser, em se tratando de Yuka –, mas é sonoramente mais arejado, mais climático, mais variado. Enfim, é mais.

“Todo mundo quer o Yuka rancoroso”, diz Marcelo no quarto-estúdio de sua casa na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Ele conta que o CD do F.UR.T.O. foi fruto de um momento paradoxal: vítima da violência urbana em 2000, quando ficou paraplégico depois de ser baleado, ele convivia com criminosos, até por conta da oficina de hip hop no Morro Dona Marta. O assassinato do traficante Marcinho VP, em 2003, dentro da penitenciária de Bangu 3, foi um dos acontecimentos que acompanhou de perto. Cansou. Conheceu quem, como o próprio VP havia tentado, tinha conseguido sair do crime “pela poesia do gesto”, como define. Além disso, experiências pessoais fizeram com que Yuka entendesse outra coisa: “O amor é uma forma de inteligência”.

Canções para depois do ódio, então. Yuka quis fazer um CD que falasse sobre um tipo de amor que não é o amor a dois, não necessariamente. O amor pelas pessoas, em especial aquelas que só são lembradas em tempo ou de tiroteio ou de eleição. Afinal, ele não perdeu o dom da crítica social. “Se alguém disser que o disco é inacessível, eu falhei”, reflete. Retruco que ele não me parece correr esse risco. Apesar de o disco ter sido concebido solitariamente, há uma banda de gente colaborando. Para começar, em vez de um único vocalista, há cinco: Bukassa Kabengele, belga de origem congolesa, radicado em São Paulo desde criança, ex-membro do grupo Skowa & A Máfia, o mais assíduo; as cantoras Barbara Mendes e Cibelle; e, numa faixa cada, Céu (na delicada eletrônica de “Por Pouco”) e Seu Jorge (no samba de exaltação negra “Cortejo Milenar”).

Como se lê, os gêneros trabalhados nos discos que não foram adiante, ao menos não por enquanto, encontraram abrigo em “Canções Para Depois do Ódio”. Mas não só eles. Como já acontecera no F.UR.T.O. e, antes ainda, no seu tempo com O Rappa, o novo álbum de Yuka tem, além de eletrônica de diversos pesos e de samba, variedades de reggae, rock, soul, funk e música africana. Nada surpreendente para um sujeito cuja voracidade auditiva o faz curtir pós-funk e a música clássica contemporânea de Arvo Pärt. Em “Canções Para Depois do Ódio” há uma outra presença importantíssima, a de batidas afrobrasileiras, personificadas no percussionista Laudir de Oliveira. “Ele é o último representante dessa batida afrobrasileira”, enaltece Yuka. “Há outros que fazem é uma batida afrocubana, mais exibicionista”. Assim, tanto a faixa de abertura “O Dia em que o Homem se Cansa” quanto “A Carga” se beneficiam de uma percussão sutil e tocante.

Outro parceiro importante é Apollo 9, o coprodutor de “Canções Para Depois do Ódio” junto a Yuka, com quem trabalha há sete anos. Ele é, por exemplo, um dos quatro tecladistas presentes na faixa “Um Minuto Antes do Fim” (os outros são André Sachs e Donatinho, além do próprio Yuka, que, pelo álbum, também arranja, toca percussão e baixo sintetizado). Ela mostra o entrosamento da dupla criando um clima de beleza sombria, musicalmente explorando um espaço que vai de um reggae a algo que soa quase como rock progressivo. De modo adequado à letra, tudo soa urgente. “Policial para e repara/ Antes do sangue espirrar na sua mão”, canta Cibele. “(…) A voz engasga/ A bala engasga/ A sorte engasga/ Um minuto antes do fim/ Eu vi você/ Como uma coincidência/ Que tinha de ser”. O trecho ilustra a passagem de Yuka, do social ao pessoal, passagem que de alguma forma diz presente em todas as 16 faixas.

Mais concisas do que em outros tempos, suas letras não perderam o velho gume da denúncia e ganharam uma nova serenidade, graças à aceitação do budismo, a práticas de meditação e ioga, além da forma de iluminação, mais terrena. “O feminino me ajudou muito”, lembra, comovido. “Só as mulheres têm a paciência de que necessito”. Entre esses dois polos, o político e o pessoal, surgem versos chamejantes. Como “Ele tapou com papel de bíblia o sangramento/ E se sentou no último banco do seu passado”, que abrem “Dali”, uma visão cética, distópica das UPPs. Ou como “Eu não vim até aqui para você me aceitar/ Eu sou mais um coração nesse lugar”, que, repetidos, encerram a faixa “Algo Mais Explícito” – e o álbum – como se numa prece. Prece que se segue a um reggae. Reggae que faz pensar numa tela em branco, sobre a qual Yuka atira outros elementos (aliás, é sua a capa do álbum). Mais um belo exemplo de outra coisa que Yuka descobriu nos últimos onze anos. “Um sussurro vale mais que um grito”, ensina.

 

“Canções para Depois do Ódio” por Bruno Levinson:

Quando, junto com ele, escrevi sua biografia, “Não Se Preocupe Comigo”, o capítulo que mais queria escrever é o que ele está lançando agora: “Canções Para Depois do Ódio”, o novo disco do Marcelo Yuka! Depois de tantos capítulos, depois de tanta vida, caminhos só de ida por sentimentos dúbios, tanta dor e dúvida, sinto que o melhor do Yuka está por vir. Tem uma página sendo virada. Seu disco é uma obra daquelas que já não se faz mais. Ninguém sai indiferente a uma audição/leitura atenta. Esteja preparado. Pense bem! Tem certeza que quer ouvir?! Tenha medo! Yuka é um cara de visão. Visões. O que nos mostra é cru, é áspero, arde pra sarar e ele não assopra. Cospe. Faz mudar, rever, entender. Para mim é fundamental. Para você, não sei. Será? Você tem mais coragem ou medo?!

Na verdade, sinto sim que o livro termina neste disco. Biografia de gente viva é assim, segue sendo escrita mesmo depois de lançada. Tenho pra mim que Yuka é feito bicho, uma cobra, uma lagartixa e vai descamando, mudando, renascendo. Depois do livro e mais ainda agora depois do disco, acho que vai virar borboleta. Tem uma vida, uma forma de ver e criar, um jeito de falar, expor, rasgar, que encerra seu ciclo colocando o ponto final neste Ódio. Páginas e páginas de vida viradas para chegar até aqui. De agora em diante, sinto que Yuka vai amar cada vez mais fora da caixa.

Não é que ele futuque nas feridas, ele as tem no corpo. Quando a gente olha para o Yuka vê uma poesia concreta sobre a nossa dura realidade. Ninguém olha para o Yuka impunemente. A gente sabe o que representa ele ali sentado naquela cadeira. Uma ferida exposta. Yuka é uma escara da sociedade. Quando sangra nele, sangra em todos nós. E se já não bastasse saber cutucar feridas como ninguém com a sua forma de escrever, agora ele pinta. Você já viu as pinturas do Yuka? Então veja! Veja o material gráfico deste disco! É a tradução perfeita do que se ouve. É filme. Tenso. E nessas águas turbulentas mergulhar profundo é inevitável. Vai parecer que o fôlego pode acabar. Não caia nessa água se o que busca é diversão. Não ponha nem os pés se o que quer é festa. Tenha medo. Não escute “Canções Para Depois do Ódio” como se escuta música hoje em dia.

Com “Canções Para Depois do Ódio” Yuka nos faz seguir suas pegadas, hoje retas paralelas. O verso e o reverso. O claro e o escuro. Solidão e confusão. O menor caminho entre dois pontos não é uma reta. Yuka traça tantas linhas que dá outro sentido para o que pode parecer rabisco. A vida não tem rascunho! O que ele nos diz é certo. Preciso. Poético. Afiado. Certeiro. Intenso. Yuka não é Artista, é arte. Yuka não é pensador, é pensamento. Não é lugar, mas caminho. É sujeito e verbo.

“Canções Para Depois do Ódio” é um ato político que “faz mais barulho do que bombas”. Escutar este disco é perigoso, espalha estilhaços. Se você tem mais coragem do que medo, então vá. Sabendo que não sairá ileso. Não mesmo.
Ficha técnica do álbum:

Produção musical: Marcelo Yuka e Apollo 9
Produção Executiva e finalização: Geraldinho Magalhães e Jr Fontes/Diversão e Arte

Repertório:

  1. O Dia Em Que o Homem se Cansa
    Composição: Marcelo Yuka /Part. especiais: Bárbara Mendes e Bukassa Kabengele
  2. Assim É a Água
    Composição: Marcelo Yuka e Apollo 9 / Part. especial: Bukassa Kabengele
  3. Movimento da Massa
    Composição: Marcelo Yuka / Part. especial: Bukassa Kabengele
  4. Por Pouco
    Composição: Marcelo Yuka / Part. especial: Céu
  5. Myto
    Composição: Marcelo Yuka e Apollo 9 / Part. especial: Bukassa Kabengele
  6. Agora Nesse Momento
    Composição: Marcelo Yuka e Apollo 9 / Part. especial: Cibelle
  7. Confusão
    Composição: Marcelo Yuka e Apollo 9 / Part. especial: Bukassa Kabengele e Bárbara Mendes
  8. Até Você
    Composição: Marcelo Yuka e Bukassa Kabengele / Part. especial: Bukassa Kabengele e Bárbara Mendes
  9. Dali
    Composição: Marcelo Yuka e Bukassa Kabengele / Part. especial: Bukassa Kabengele e Black Alien
  10. A Carga
    Composição: Marcelo Yuka / Part. especial: Bukassa Kabengele e Vick Lucato
  11. Um Minuto Antes do Fim
    Composição: Marcelo Yuka e Apollo 9 / Part. especial: Cibelle e Fellipe Mesquita
  12. Memórias Artesanais
    Composição: Marcelo Yuka e Jomar Schrank / Part. especial: Bukassa Kabengele
  13. A Tempestade
    Composição: Marcelo Yuka / Part. especiais: Vick Lucato, Fellipe Mesquita, Bárbara Mendes e Bukassa Kabengele
  14. Cortejo Milenar
    Composição: Marcelo Yuka e Jomar Schrank / Part. especiais: Seu Jorge, Bukassa Kabengele e Fellipe Mesquita
  15. Cidade do Amparo
    Composição: Marcelo Yuka / Part. especiais: Vick Lucato e Fellipe Mesquita
  16. Algo Mais Explícito
    Composição: Marcelo Yuka / Part. especiais: Bukassa Kabengele, Bárbara Mendes, Ricô e Vick Lucato